O primeiro Natal de uma mãe que perdeu o filho


Reproduzo abaixo carta enviada por Marlene Souto, mãe do administrador de empresas Anderson Miranda Souto, 26 anos - assassinado em maio deste ano - ao Blog de Jamildo.

No texto, dona Marlene mostra a indignação de uma mãe que perdeu o filho para a violência. Anderson foi morto durante assalto em um semáforo na Avenida Recife, em Jardim São Paulo, Zona Oeste do Recife.

Neste Natal, sobram saudades e dor. Carta para ler e refletir.

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Uma mãe que clama por Justiça

Por MARLENE M. DE MIRANDA SOUTO


...Sete meses se passaram.

Hoje, venho expressar a minha eterna gratidão para com todos que, através de uma palavra, gesto, carinho, e oração, estão nos ajudando a seguir nesta jornada, com a ausência do nosso primogênito ANDERSON MARCOS DE MIRANDA SOUTO.

Anderson, que não foi apenas um Administrador de Empresas, mas sim uma pessoa incrível, admirado por todos que o conheciam, um filho maravilhoso, amigo, companheiro, dotado de uma inteligência como poucos... e há sete meses, estamos órfãos de tudo isso!

Até quando meu Deus? Nós, seres humanos, especialmente nós Pernambucanos, vamos ter que conviver com tanta violência, tanta bandidagem?

Perdemos um filho!!! Um filho que qualquer pai, mãe, irmão, gostaria de ter, mas não fomos apenas nós que perdemos, o nosso Estado, ou porque não dizer, o nosso País, também, ficou mais pobre, pois perdeu um cidadão que tinha uma bagagem enorme, com objetivos a serem alcançados e com ideais positivos de mudança, sonhava com a UTOPIA.

Só quem teve o prazer de conhecer e conviver com aquela humilde criatura, sabe o quanto ele era uma pessoa capaz, perseverante em seus objetivos; Força para lutar nunca lhe faltou. Chegar à Diplomacia era a sua meta. Alguém duvida? Com certeza, não os que o conheceram de perto.

Idiomas, músicas – com o seu inseparável violão – pesquisas, eram o seu passa-tempo preferido. Percorrendo esse caminho só fazia amizades, o que ele sabia selecionar muito bem, e também cultivá-las, o que era mais importante, ao ponto de seus amigos serem uma extensão de nossa família.

Difícil imaginar, que de uma hora para outra, perdemos tudo isso da forma mais brutal e cruel para um ser humano que só fazia o bem, pensando sempre no melhor para todos.

Nunca mediu esforços para ajudar ao próximo em qualquer situação. Daí sempre me vem à pergunta: Meu Deus por que ele? Por que pessoas como ele? E só encontro uma resposta: IMPUNIDADE, IMPUNIDADE E IMPUNIDADE.

Até parece que só bandido tem vez.

Na mesma semana que perdi meu filho, foi lançado um projeto do Governo do Estado de Pernambuco, chamado "PACTO PELA VIDA", o que mudou?

Quantas vidas foram interrompidas nas mesmas circunstâncias da de Anderson? Na mesma imediação da Avenida Recife?

Quantas vítimas nesse período? Não se sabe, mas acredito que, graças a Deus, tenham tido mais sorte. Mas, quais as providências tomadas pelas autoridades?

Vale a pena amar esta Cidade? Este Estado? Este País? Pois, junto à dor que sentimos há sete meses, cresce a certeza da impunidade.

Quem ceifou a vida de Anderson, será que não repetiu, até mais vezes, o mesmo ato inconseqüente nesse período? Tomara Deus que não! Pois ele ou eles continuam por aí.

Que tipo de justiça é a nossa? Até existe para alguns, claro, nada compensa a ausência de Anderson, mas amenizaria um pouco da dor, se já tivesse havido justiça, e passaríamos a acreditar mais em nossas LEIS.

Que valor tem a vida das pessoas que, como Anderson, almejava sempre o bem, acreditava em um Brasil melhor, achando que as noites que ficou sem dormir diante dos livros e seu computador, enriquecendo seus conhecimentos, pudessem fazer parte daqueles que engrandeceria um País que ele tanto acreditou.

Por tudo que ele foi nesta terra só nos resta agradecer a Deus pelo privilégio de tê-lo como nosso filho e poder, até mesmo, ter aprendido alguma coisa boa durante os 25 anos e 10 meses de convívio. VALEU FILHO.

Neste primeiro Natal que vamos passar sem a presença física de Anderson, na certeza de que ele está com Deus, em um cantinho muito especial, pedimos ao nosso PAI: proteção para todos, muita, mas muita Paz, até mesmo para os familiares dos que interromperam a vida do meu filho, pois não tiveram o prazer de ter um filho como Anderson. "Tende compaixão, Senhor".


A todos que conviveram e conheceram Anderson, recebam um abraço afetuoso com muita paz neste Natal e que possamos viver sem violência. Vocês foram as pessoas selecionadas por Anderson, especialmente colegas de colégio, cursos e faculdade.

Hoje vocês são os filhos adotados por nós. Um beijo no coração de cada um escolhido pelo nosso inesquecível ANDERSON MARCOS DE MIRANDA SOUTO.

Uma mãe que chama por JUSTIÇA.

joão veiga

comentou em 25.12.2007 às 20h13m

Não é possível que a carta desta mãe não "toque" a todos nós que fazemos a gestão pública em PE. Esta mãe antes de ser uma brasileira e pernambucana é uma cidadã do Recife, como poderia ser de Jaboatão ou de Olinda. Como pode o pacto pela vida ter bons resultados quando os prefeitos acham que só quem morre são pernambucanos e brasileiros? Sugiro que os coordenadores do pacto pela vida chamem os senhores prefeitos para contar os cadáveres e exigir ENGAJAMENTO. No lançamento no PACTO PELA VIDA vi de tudo, menos prefeitos. Lavaram as mãos como Pilatus? O problema é de Ratton? É do governador Eduardo? Sugiro que o sítio PE Body Coutry faça a contagem por município, ou seja, “hoje foi morto mais um olindense, já é o centésimo primeiro do ano” e fazer isto com Recife, Jaboatão colocando a taxa de homicídios de cada cidade, exemplo: “hoje foi assassinado mais um recifense, o milésimo primeiro do ano de 2007 representando uma taxa de homicídios de tantos % , quando a taxa da cidade de São Paulo é de tanto, da cidade de Rio é de tanto, da cidade de João Pessoas é de tanto, de Medelin é de tanto. Estas cidades bastariam, na minha opinião. Este ano, operei no HR dois pacientes que foram assassinados e que não eram pernambucanos; eram olindenses e recifenses e as suas mães poderiam ter escrito cartas iguais a esta. João Veiga Médico do HR

Madalena Scalone

comentou em 25.12.2007 às 21h27m

Que dor aguda essa mãe sente dentro do peito.Que falta de postura do Governo Estadual e Municipal que nada fazem. Pacto Pela vida ou propaganda enganosa???ontem quando liguei a TV local (nos telejonais), só tinha tragedia.Como pode os nossos governantes dormirem tranquilos.SE O MUNICÍPIO PENSA QUE A RESPONSABILIDADE É SÓ DO ESTADO, ENGANA SE.Tenho vergonha de morar nessa cidade que um dia foi chamada de Veneza brasileira.Isso aqui é Veneza do inferno.Não tenho uma amigo ou amiga que toda a semana sofra um assalto na Agamenon Magalhães .... BASTA !!!

Karina Silva

comentou em 25.12.2007 às 22h34m

Desde que nosso grande amigo Anderson se foi dessa maneira absurda, nós, seus amigos, irmãos, pedimos justiça. A violência sofrida por ele foi retratada aqui nesse blog, na época recém-inaugurado. Contamos com meios sérios como o PE Body Count para "dar voz" a nossa indignação. Conviver com Anderson foi realmente um grande privilégio e não há como nos conformarmos como o que aconteceu, culpar a tal "fatalidade". Espero que o apelo por justiça de Dona Marlene nos sensibilize, nos incentive na busca de soluções para esta violência desmedida. Anderson vai sempre estar vivo dentro de nossos corações e ações, mas perdas como essa não podem acontecer mais. Chega de impunidade. Queremos justiça. E não dá mais pra esperar...

Cláudio

comentou em 29.12.2007 às 10h35m

A violência certamente irá crescer mais ainda se os governos não tomarem providências reais. Como é que a violência pode diminuir se vários fatores contribuem para que ela aumente a cada dia. posso citar aqui vários fatores que contribuem para a violência: INGERÊNCIA POLÍTICA NO JUDICIÁRIO, NO MINISTÉRIO PÚBLICO, NAS POLÍCIAS E NOS DEMAIS ORGÃOS DE SEGURANÇA PÚBLICA; LIBERAÇÃO DO USO DE DROGA ; FALTA DO COMBATE AO TRÁFICO DE DROGAS; FALTA DE APARELHAMENTO DAS POLÍCIAS ; FALTA DE EMPREGOS; DISTRIBUIÇÃO DE BOLSA ESMOLA; CORRUPÇÃO EM TODOS OS SEGMENTOS DA SOCIEDADE; MILHARES DE ONGs FINANCIADAS PELO GOVERNO PROTEGENDO BANDIDOS; DESMOTIVAÇÃO DAS PESSOAS QUE TRABALHAM NOS ORGÃOS DE SEGURANÇA PÚBLICA; FALTA DE ESTRUTURA FAMÍLIAR; FALTA DE RELIGIÃO; FALTA DE CIVÍSMO e OUTROS.

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comentou em 07.01.2008 às 17h19m

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comentou em 16.01.2008 às 19h05m

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comentou em 16.01.2008 às 19h06m

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comentou em 24.04.2008 às 20h01m

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comentou em 24.04.2008 às 20h02m

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