Homicídios não fazem parte do cotidiano dos abastados bairros do Recife. O assassinato de um casal, na noite de sábado, no entento, interrompeu a rotina dos nobres moradores do Espinheiro. Adilson Gonçalves da Silva, 34 anos, e Simone Alves da Silva, 31, foram mortos com vários tiros dentro de um veículo (Palio, de placa KIY-1606), no cruzamento das Ruas 48 e da Hora.
Mais do que aguçar a curiosidade dos habitantes locais, o crime parece ter despertado a atenção da polícia. A incomum ocorrência mobilizou nada menos do que seis viaturas e duas motos da Polícia Militar. Ou seja, um efetivo de, pelo menos, 14 PMs se prontificou a acompanhar o caso. Algo jamais visto na minha modesta cobertura policial, nem mesmo nas áreas consideradas mais perigosas.
Das duas, uma: ou há excesso de contigente na Polícia Militar, ou o policiamento ostensivo de outras localidades da cidade ficou descoberto. O duplo assassinato ocorreu por volta das 22h30. A Força-Tarefa de homicídios chegou ao local do crime, extamente, à 0h35 deste domingo.
A foto, confesso, é de péssima qualidade. Mas foi o que deu para fazer.
O PEbodycount mais uma vez abre espaço para o desabafo de familiares das vítimas da violência em Pernambuco. Reproduzo abaixo texto enviado pelas primas de Maria Eduarda Ramos de Barros, assassinada a tiros por PMs que tentavam evitar um assalto na Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife.
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"Silêncio do Governador"
Por Paula Barros e Patrícia Barros (primas de Maria Eduarda)
18 de agosto de 2008... Familiares de Maria Eduarda Ramos de Barros, instituições da sociedade civil, cidadãos e cidadãs reuniam-se em frente ao Palácio do Governo, para manifestar a indignação frente à violência e fazer a entrega da carta que contou com 14.140 assinaturas. O principal destinatário da carta não esteve presente.
Nenhum retorno ao ofício previamente protocolado. Somente a notícia de que o Sr. Governador Eduardo Campos estava na entrega das novas viaturas da Polícia, cumprindo um dos objetivos do Pacto pela Vida. Em blog na Internet, lê-se: “Agendada inicialmente para a última sexta-feira (15), a solenidade de entrega de 210 viaturas para a Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) foi realizada, na tarde de hoje (18), no Quartel do Derby”.
Em frente ao Palácio, um grupo de policiais militares e de funcionários para garantir a paz do ato público; o gentil convite para que nos retirássemos da praça, ainda durante a concentração; o espaço reduzido à tímida calçada por detrás dos cavaletes; a dificuldade de se conceder a aproximação do carro de som. “São normas da casa!”. São igualmente normas o direito de ir e vir, o direito à vida, à proteção, à segurança. Lá estávamos para apontar que esses direitos não nos têm sido assegurados.
Durante o ato público, o silêncio como forma de gritar a indignação pelas pessoas assassinadas em Pernambuco e de exigir uma implicação do Estado em relação às falhas na política de segurança. Na ausência do Governador, o seu posicionamento diante das 14.140 pessoas que a ele se endereçaram e dele esperavam uma fala em primeira pessoa.
Ao invés dessa fala, no momento de entrega da carta, uma tentativa de “prestação de contas” dos secretários, sobre o que a Polícia vem fazendo, o quantitativo de homens que vêm sendo contratados, o inquestionável investimento que o Estado vem direcionando à segurança pública. A entrega de viaturas equipadas naquela tarde atesta isso.
Apesar da importância do equipamento da polícia, torna-se irônico que, no mesmo horário, uma família reclamava por uma ação advinda exatamente de uma viatura policial. Quem estará apto a guiar essas viaturas? Que treinamento esses policiais terão para conduzi-las? Por qual processo de formação passarão, que contato terão com o Pacto pela Vida para que, somente então, munidos de um saber e de um suporte, possam enfrentar o árduo trabalho nas ruas? São questões que se colocam e inquietam.
Alegar que o combate à violência é um processo – e realmente o é – não é um argumento que por si só se sustente, principalmente porque nesse doloroso processo, vidas estão sendo tiradas e, nesses casos, para as vítimas e suas famílias, o processo perde todo o seu sentido, na medida em que tem um fim súbito, deixa de ser processo.
O discurso que a sociedade espera não é o de uma mera prestação de contas. Precisamos de uma fala que se implique nas muitas lacunas ainda existentes (a morte de Duda denuncia uma delas); um discurso que não fique apenas a jogar para outras gestões os erros (que sabemos, são muitos) como uma forma de tamponar responsabilidades que lhe são concernentes. É esse o posicionamento que esperamos.
Se nossa resposta àquilo que nos aflige, ao nosso sentimento de desamparo perante o Estado, à dor pela perda de tantos pernambucanos e pernambucanas, veio no barulho de nosso silêncio, a do Governador veio no silêncio de sua ausência.
Um colega de redação caiu hoje no golpe do falso seqüestro. Por volta das 16h, ele recebeu um telefonema de um número confidencial no qual uma mulher chorava desesperadamente. "Ela soluçava e dizia: fui assaltada, fui assaltada".
Segundo o jornalista, a voz era muito parecida com a de uma amiga dele. Logo em seguida, um homem com sotaque carioca pega o telefone e diz que está ajudando a moça e pergunta se o colega sabe quem ela é. Acreditando ser a tal amiga, o jornalista diz que conhece e que o nome dela é fulana.
Na hora, o cara muda de tom e diz que se trata, na verdade, de um assalto que deu errado e que ele pegou a moça como garantia na hora da fuga. Se o meu colega quiser ver a amiga viva de novo teria que colaborar.
"Ele perguntou quanto eu tinha no banco, mandou eu sacar tudo e comprar cartões de recarga de celular. A todo instante eu ouvia a voz da moça chorando ao fundo e ele dizendo que se eu desligasse ou tentasse falar com alguém matava ela".
O resultado é que o jornalista comprou R$ 400,00 em cartões de telefone e carregou no número (21) 7664-4234. O fato é que o bandido utilizou as informações que o meu colega deu para pressioná-lo. Ele não sabia nomes, endereços, nem qualquer outro dado. Apenas esperou a vítima dizer um nome e, a partir daí, fingiu que estava com aquela pessoa.
É essencial manter a calma numa situação como essa, não fornecer informações pessoais e checar se a suposta vítima está bem, antes de ceder a qualquer pressão.
Casos como esse devem ser registrados na Delegacia de Repressão ao Estelionato, na Rua Montevidéu, Boa Vista.
Lembro que, em outubro de 2007, no Palácio do Campo das Princesas, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, lançou plano de segurança para erradicar no Estado a violência contra a mulher. A meta era ousada dizia o governador. Assim como era ousada a meta do Pacto pela Vida. "Em uma década não vai mais existir violência contra a mulher em Pernambuco", sentenciou a secretária Cristina Buarque.
Pois bem. A meta ousada estava condicionada a vários pilares: reforma e construção de novas delegacias, reforço no número de defensorias públicas, implantação de mais casas-abrigos, capacitação de profissionais e implementação de uma campanha permanente de enfrentamento aos abusos contra a mulher. Isso começaria a ser feito a partir daquela data.
Quase um ano depois, quase nada saiu do papel. Muito pouco. Uma delegacia ali, outra reforma acolá e pronto. Seriam 10 novas delegacias em dois anos e meio. Um ano já se passou. Prometeram ainda mais 13 defensorias públicas da mulher e implantação de seis casas-abrigo. Ontem, garantiu mais uma vez fazer as casas-abrigo. De concreto mesmo neste ano, temos 177 mulheres assassinadas em Pernambuco. Os números são da semana passada.
Em outubro do ano passado, Cristina não soube informar quanto Pernambuco receberia do governo federal para tocar os projetos. Disse que a previsão era de que o plano teria um investimento em dez anos de 324 milhões de reais. Só ontem, o Estado aderiu ao Pacto Nacional de Combate à Violência contra as mulheres. Eduardo Campos e a Ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire, assinaram um convênio que vai repassar cerca de R$ 3 milhões. Já é um começo. E como veio dinheiro, veio mais promessa. O Estado se comprometeu a implantar um Plano Integrado de Enfrentamento da AIDS, combater a exploração sexual e tráfico de mulheres e promover direitos humanos das mulheres presas.
A cena acima foi captada pela lente do fotógrafo Alexandro Auler esta manhã em um cruzamento de Boa Viagem. O rapaz distribuía panfletos na rua e brincava com um amigo mostrando a tatuagem de uma pistola. É a violência cada vez mais sedimentada no nosso cotidiano.
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